Aprendizagem, Ondas e Rizomas ou Como Esse Texto Foi Construído
Hoje eu não queria falar de internet, mas falhei miseravelmente.
Estou no terceiro dia do desafio de 100 dias de escrita. E agora, enquanto vivo a vida, às vezes tento capturar algum pensamento entre os que passam rapidinho pela mente na esperança de um potencial texto para o dia seguinte. Parece que qualquer coisa pode virar aquela sentença que vai se desdobrar em uma tese e, consequentemente, em parágrafos que dirão algo que considero relevante o suficiente para compor o blog. Ora a coisa vem em forma de frase, ora como imagem que pode servir de referência para um conceito a ser explorado.
Mas, para mim, o mais fascinante é que essa ideia nunca se desdobra de forma linear. Por vezes, um pensamento que pareceu potente no início do dia e logo em seguida foi descartado, retorna mais tarde, ligando-se a uma nova "grande ideia" que provavelmente seguirá o mesmo ciclo rumo à ideia seguinte. Este texto é um bom exemplo disso.
As ondas
Ele meio que começou ontem, quando esbarrei com a postagem "Fascinio Periódio Rotacional" de um autor que mais tarde descobri ser usuário do Mastodon, o Guites. O Guites faz uma análise crítica da oscilação de seus interesses por cigarro, álcool e skate no decorrer do tempo e o modo como isso impactou sua vida.
Achei o texto muito criativo e inusitado. Pensei em usá-lo como inspiração para a postagem de hoje, mas descartei, pois precisaria de mais tempo do que teria disponível para desenhar os gráficos. Mas as ondas do gráfico ficaram lá, em segundo plano, enquanto vivia a vida.
Então, horas depois, surgiu uma nova ideia. E se eu falar sobre aprendizagem? Como tenho estudado esses processos na pós, seria interessante fazer um texto utilizando esses conhecimentos. Na hora, pensei que poderia fazer uma relação entre aprender e as ondas, fazendo assim um texto sobre como a aprendizagem é não linear. Cheguei até a projetar a coisa na minha cabeça. Tinha certeza de que hoje sairia como planejado.
Mas, quando deitei a cabeça no travesseiro, veio um pensamento novo se intrometendo no projeto de texto SUPOSTAMENTE pronto: "E se ao invés de ondas eu associar a aprendizagem a um rizoma?"
Os Rizomas

Rizoma é um conceito elegante de Deleuze e Guattari para descrever um tipo de conhecimento que valoriza a conectividade, a diferença e a multiplicidade. Eles argumentam que o conhecimento não emerge de regras fixas ou verdades absolutas. Em vez disso, ele é construído de diversas formas simultaneamente, sendo influenciado por múltiplas perspectivas e experiências.
A imagem dos cogumelos acima é um exemplo disso. Não dá pra saber muito bem onde começa ou termina. Os nós e pontos de encontro entre eles se ramificam sem nenhuma hierarquia.
Desse ponto de vista, o conhecimento é visto como uma rede, crescendo e se entrelaçando a partir de vários lugares ao mesmo tempo, sem uma base única e imutável. Mas há um outro modo de entender o conhecimento como se fosse uma pirâmide.
No conhecimento como pirâmide, a aprendizagem é vista como uma linha ascendente. Para chegar ao "topo" do conhecimento, é fundamental superar a etapa anterior e seguir sempre em frente, sem olhar pra trás. O conhecimento tem uma base e um topo; não há oscilações, apenas progresso.
Eu, particularmente, acho agoniante essa forma de enxergar o conhecimento e a aprendizagem.
Talvez por experiência pessoal. Pois as coisas que aprendi na vida nunca vieram de forma linear. Sempre vieram em ondas, inclusive de motivação. Sempre mediadas por meus interesses e os pontos de encontro entre eles.
Assim como o Guites, meu nível de interesse em diferentes coisas, em diferentes momentos da vida, foram me levando a diferentes lugares. Por isso achei os gráficos que ele fez tão sensacionais. Por mais que ele use linha e ondas, na verdade ele está buscando os nós do rizoma que podem dar algum sentido para certos acontecimentos e comportamentos. E essa é uma bonita forma de ver as coisas.
E esse texto?
Esse texto não é diferente. Ele não surgiu de modo linear. Pensamentos aparentemente independentes se conectaram para construí-lo.
Na verdade, não só pensamentos. Também me conectei com a ideia de outra pessoa, que por acaso entrei em contato e passou a compor mais um nó na minha teia de pensamento. Um nó que talvez não se construiria em uma internet que funciona em linha reta como a das timelines, ou melhor, um nó que talvez não fosse feito se um algoritmo tivesse decidido que não me apresentaria o texto de uma pessoa desconhecida.
Acho que em um de seus textos Deleuze fala que a mídia que circula molda a produção cultural e artística… mas acho que vou guardar bala para os textos seguintes.
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